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Mario
de Andrade : Oswaldo Goeldi - Diário Nacional
- São Paulo - 22/09/1929
Oswaldo Goeldi : Diário Nacional - São
Paulo - 08/02/1930
Jorge
Amado : Mestre Goeldi - Jornal Hoje - Rio de Janeiro
- 18/09/1960
Rubem Braga: Assim é Goeldi - O Globo - Rio
de Janeiro - 11/09/1960
Mario et. al. Barata : Goeldi, Macunaíma (numero
especial dedicado à Oswaldo Goeldi) escola
Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro- 04/08/1961
Raquel de Queiroz : O Goeldi de Reis Júnior
- O Cruzeiro - Rio de Janeiro - Coluna Última
Página - 02/1966
Goeldi em testemunho - Jornal A Tarde - Salvador -
27/01/1967
Murilo Araújo : Oswaldo Goeldi - Jornal do
Comércio - Rio de Janeiro - 04/08/1971
Anna Letycia Quadros - Entrevista: Anna Letycia fala
de seu professor Oswaldo Goeldi - Correio da Manhã
- Rio de Janeiro - 10/09/1971
Raquel de Queiroz : Oswaldo Goeldi artista brasileiro
- O Cruzeiro - Rio de Janeiro - 11/03/1971
Beatrix e Goeldi - O Cruzeiro - Rio de Janeiro - 23/03/1971
Beatrix Reynal : Beatrix Reynal fala de Oswaldo Goeldi
- Jornal do Comércio - Rio de Janeiro - 17/09/1971
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Uma
das mais fortes e curiosas exposições
de arte que já vi foi improvisada num bar,
depois da meia-noite, quase à hora crispante
de se correrem as cortinas de aço. Apresentaram-me
um rapaz anguloso, de nariz duro, olho metálico:
o artista Oswaldo Goeldi. Um nome em branco para mim.
O rapaz trazia uma pasta embaixo do braço.
Sentou-se à mesa, abriu a pasta, e então,
correu em volta de mão em mão uma estupenda
coleção de gravuras em madeira e desenhos
a pena e a lápis. Que emocionante surpresa!
Todo um mundo interior riquíssimo abria-se
ali, atestando uma força de concepção,
uma magistralidade de traço, um senso dramático
da paisagem urbana, que nos enchia de pasmo.
A imaginação de Oswaldo Goeldi tem a
brutalidade sinistra das misérias das grandes
capitais, a soledade das casas de cômodos onde
se morre sem assistência, o imenso ermo das
ruas pela noite morta e dos cais pedrentos batidos
pela violência de sóis explosivos, -
arte de panteísmo grotesco, em que as coisas
elementares, um lampião de rua, um poste, a
rede telefônica, uma bica de jardim, entram
a assumir de súbito uma personalidade monstruosa
e aterradora. Um admirável artista.
Mas donde saíra? Como viera? Por que assim
inteiramente desconhecido?
Oswaldo Goeldi nasceu em 1895, no Rio. Viveu a primeira
infância no Pará. A riqueza da fauna
e da flora que tinha diante dos olhos, alimentaram
a fantasia do menino, da mesma forma que mais tarde
as freqüentes viagens entre o Amazonas e o Rio,
duas travessias à Europa, um poder de impressões
diversas, portos, cidades, raças, - tudo o
que a arte do homem refletiria depois com vigor insólito.
Em 1915 iniciou-se em Berna em estudos químicos
e agrícolas, mas o pendor para a arte levou-o
a abandonar tudo, partindo para Genebra, bom centro
artístico, onde naquele tempo existia ainda
o grande Ferdinando Hodler. Ali, na Galeria Moos,
via Goeldi quadros de Gauguin, Cézanne, Renoir,
Van Gogh, Van Dongen, Signac... Já nessa época
produzia muitos desenhos. Passou pelo atelier de Serge
Pahnke e Henry Van Muyden, onde recebeu uma espécie
de educação às avessas, pois
naquele ambiente acadêmico se lhe formou uma
profunda, definitiva antipatia contra essa arte morta,
sem imaginação, sem alma, sem nervos.
Os verdadeiros mestres de Goeldi foram aqueles artistas
cujos quadros ele via na Galeria Moos; foi sobretudo
a arte visionária de Kubin, o tcheco fantástico,
o genial ilustrador de Poe, de Gérard de Nerval,
de Barbey d’Aurevilly, do Livro de Daniel.
Em 1920 voltou Goeldi ao Brasil, onde nunca realizou
nenhuma exposição. Todavia tem trabalhado
continuamente e só ultimamente a sua obra começou
a ser conhecida. Tal o artista que apresenta neste
álbum alguns exemplares de gravura em madeira,
pelos quais se pode apreciar a sua força de
intuição e temperamento. (1930)
Manuel
Bandeira
Do livro "Andorinha, Andorinha", J.O., Rio,
1966, págs. 58/59.
Apresentação do álbum "Dez
Madeiras", de O. Goeldi.
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"
Oswaldo Goeldi - Discreto, econômico de palavras
e de gestos, Goeldi ficou sendo uma figura especial
e isolada no cenário da arte brasileira contemporânea.
Trabalhou apoiado em convicções muito
pessoais e o seu desempenho artístico resultou
da procura exclusiva de soluções que
atendiam tão-somente às suas necessidades
expressivas. Solitário como homem e como artista,
impregnou suas gravuras e desenhos com este modo de
ser e de existir. Entre a vida e a obra estabeleceu
uma extraordinária e comovente coerência.
Para Otto Maria Carpeaux "a arte de Goeldi lembra
um recurso raro de dramaturgia: o monólogo.
É por definição uma arte silenciosa".
Esta observação reúne de modo
sintético e adequado a melhor definição
do desenhista gravador. Nesta arte silenciosa e quieta,
o dia e a noite, a luz e a sombra, a vida e a morte
pertencem a um espaço soturno onde uma espessa
atmosfera de abandono e solidão, carregada
de lirismo, envolve personagens cativos de um desígnio
dramático. "
Renina
Katz
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"O
desenho e a xilogravura foram meios exceJentes para
o projeto artístico goeldiano. O preto e o
branco, os semi-tons que não chegam a ser cinzas,
formam um compacto repertório de elementos
gráficos suficientes para que possam acontecer:
"as
diferentes espécies de treva ,..; em que os
objetos se elaboram:
a treva do entardecer e a da manhã; a erosão
do tempo e do silêncio !
a irreal idade do real".
Carlos Drummond de Andrade.
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A
luz na gravura de Goeldi resulta de cortes preciosos
sem virtuosismos ou ornamentos excedentes. Ela aparece
como contraponto para as penumbras e sombras, exaltando
magistrais contrastes que foram a marca permanente
do artista. A cor, por sua vez, cumpre a função
de acentuar as vibrações luminosas que
geram as tensões da imagem. A cor não
tinge nem colore. A cor marca um valor intermediário
nas relações dos valores acromáticos;
ela pontua como um elemento de ruptura da imobilidade
das formas, como se fosse um grito.
O desenho para Goeldi converteu-se em um instrumento
indispensável para aprofundar o que ele chamava
meios de expressão. Temia que o gravador que
dispensasse o exercício do desenho ficasse
preso nas malhas da técnica, "trocando
os meios pela finalidade". É por meio
de desenho que o artista se habilitou para a captação
do mundo visual que, mesclado aos seus sonhos, constituiu
a matéria para a criação do seu
universo gráfico fantasticamente melancólico
e pungente.
Goeldi tinha posições muito claras e
firmes em relação ao seu procedimento
artístico. Em entrevista a Ferreira Gullar,
publicada no Jornal do Brasil, 12.1.57, indagado sobre
o que seria inovação em arte, respondeu:
"não se deve confundir experimentos técnicos
com a verdadeira inovação. Todo artista
realmente criador inova, e isso porque ele amplia
seus meios na proporção de sua necessidade
de expressão". A moda e as novidades não
faziam parte de suas preocupações. Escolheu
ou encontrou um caminho, no qual mergulhou sem nunca
perder o sentido de aprimoramento. Era um artista
moderno no sentido que Lívio Abramo entendia:
"um artista que conhece as forças que
movem o mundo".
Convencido do que deveria fazer e obter como artista,
não se sentiu atraído pelas discussões
e polêmicas sobre os rumos da arte contemporânea.
Seguiu sua trajetória como se o seu destino
artístico já estivesse traçado
e dele não se propusesse escapar, pois havia
sido, também, uma escolha e um ato de fé.
Expressionista inconfundível, tanto na fatura
como no imaginário, Goeldi tem como tema constante
a condição humana, que ele revela por
meio de imagens densamente embebidas no assombro e
na perplexidade.
Nos seus desenhos e gravuras não há
redundâncias. A escassez parece as~umir quase
que um sentido ideológico. Na obra e na vida.
Certa vez disse a RacheI de Queiroz que a pobreza
era a sua liberdade. Frase que se ajusta perfeitamente
à postura do expressionista que se deixou tocar
por um certo sentimento romântico, ao menos
no que se refere ao gosto pelo dramático.
Goeldi viveu na Suíça dos seis aos vinte
e quatro anos e, evidentemente, o peso de sua formação
repousa em padrões europeus, com repercussão
evidente em sua obra artística. Serviu como
soldado na guerra 1914/1918, o que o obrigou a interromper
seus estudos politécnicos em Zurique. Ao voltar
das trincheiras não retomou a politécnica,
preferiu ingressar na École des Arts et Métiers,
em Genebra. Nesta época, 1917, freqüentou
também o atelier de Serge Pahnke e Henri van
Muyden.
1919, regressou ao Brasil e sua adaptação
foi penosa. Não era o filho pródigo
que à casa tornara. Os 18 anos vividos fora
do país faziam dele quase um estrangeiro. Tanto
assim que seu trabalho despertou interesse somente
em um grupo de intelectuais e artistas atentos, como
Álvaro Moreyra, Manuel Bandeira, Aníbal
Machado, Di Cavalcanti, entre outros. Deles recebeu
estímulo e respeito. 1
Goeldi expôs pela primeira vez no Brasil, em
1921, no Liceu de Artes e Oficios do Rio de Janeiro.
Seu trabalho rico de recursos gráficos e pobre
de apelos visuais fáceis não encontrou
por parte do público e da imprensa especializada
a acolhida merecida. Um clima de abandono e desamparo
abrigava uma mensagem de ternura pelo mundo e pelos
seus sofridos habitantes. Os temas para seus desenhos
e gravuras eram densos e tristes. Temas de aceitação
dificil. O fato de a arte sobre papel não gozar
de muito prestígio, constituiu agravante para
a pouca circulação e divulgação
de seu trabalho.
Não se deixava afetar por gostos ou preferências
estilísticas orientadas pelo mercado de arte.
Pagou caro por esta indiferença. Foram necessários
muitos anos para que o padrão de qualidade
do seu trabalho fosse reconhecido como sendo de primeira
linha. Em compensação, sua intransigência
era tida como modelo de firmeza e liberdade pelos
jovens artistas da década de 40/50.
A sua sobrevivência cotidiana foi assegurada
pelas ilustrações para jornais, revistas
e uma vintena de livros. Não havia perda de
qualidade das gravuras e desenhos pelo fato de serem
destinados a ilustrações para reprodução.
A autonomia do processo de criação sempre
foi resguardada e defendida, mesmo nas obras realizadas
para atender encomenda. Suas gravuras originais, de
tiragem 1pouco numerosa, tiveram alguns colecionadores,
raros, que, como Mendes Caldeira, se anteciparam ao
reconhecimento histórico da importância
de Goeldi. !
Em
1951, o artista foi convidado para participar da primeira
Bienal de São Paulo,quando ganhou o 1. Prêmio
de gravura para artistas brasileiros.
Sobre o prêmio, Goeldi comentpu: "que surpresa
a minha ao receber a notícia de tão
alta distinção - com 65 anos, fora da
moda e ainda premiado. Parece sonho. É verdade
que sempre acreditei em conto de fadas". Não
era falsa modéstia ou subestimação.
Acreditava finnemente na validade do seu trabalho,
mas não fez dele trampolim para o sucesso,
não era essa a sua aptidão.
Gravava e desenhava como se fosse uma missão
que deveria ser cumprida com rigor e beleza. E assim
foi.
Renina
Katz
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Goeldi
por Grassmann
Oswaldo Goeldi tinha um lado extremamente romântico,
era o cara de olhar a tempestade. Uma vez saímos
e ele disse: "puxa, eu te procurei; tentei te
localizar lá na casa de um amigo que tinha
telefone". Mas ninguém tinha telefone;
ele também não tinha, mas tentou me
localizar porque ele disse que tinha uma nuvem em
cima da lua que dava um bicho tão maluco que
eu te procurei, desesperado para que você visse
que eu estava vendo o bicho na lua. Bom,
c; claro: Ele era uma pessoa... mas ele era absolutamente
violento com as convicções dele. Eu
vou
contar uma história que é divertida.
Alguém, de safadeza, acho que o Darel, levou
para ele um livro de desenhos de Picasso, parodiando
o Cranach. O Goeldi começou: " isto é
um desenhista. Você vê,
'" um Cranach é um Cranach". Daí
o Darel falou: " Goeldi, mas este é um
Picasso". Ele disse: " este
homem é diabólico". Ele ficou louco
de ser ludibriado pelo Picasso e, de fato, ele não
perdoava o
Picasso '" disse que o Van Gogh era um vagabond
sentimental.
Então ele disse que essa frase do Picasso o
opôs a ele para a eternidade.
" Nunca mais quis aceitar a opinião de
Picasso a respeito de coisa alguma" .
Marcelo
Grassmann
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"Que estranho homem será esse que resolve
as nossas emoções mais subterrâneas
com figuras de pavor, de solidão e tristeza.
Que sortilégio especial emana daqueles quadrados
escuros saídos da madeira e que nos gritam
um apelo tão profundo e dramático, despertando
inesperadas ressonâncias? "
Raquel
de Queiroz
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"Resolvi
trabalhar com Goeldi, um homem que dava liberdade,
dizia como fazer, que a gente realizasse aquilo que
vinha de dentro, aquilo sim!
Fiz planos para no ano seguinte me matricular em gravura
com Goeldi. (...) fui à Escola na Quarta-Feira
de Cinzas, para realizar a matrícula. Para
minha triste surpresa, d. Alda, funcionária
da Escola, me avisou da morte de Goeldi e do seu enterro,
naquele dia, às 16 horas.
Fiz um desenho do enterro de Goeldi. Estava chovendo
nesse dia e fiz figuras com guarda-chuvas. Sendo assim,
fui ser aluna de Adir Botelho. Comecei a gravar, gravar,
gravar com toda a vontade. Mas não mostrava
tudo o que fazia ao Adir, pois nunca considerava como
pronta a minha gravura. Nem sempre eu conseguia o
que queria! Gostava tanto da gravura do Goeldi, com
aqueles pretos todos! Comecei, então, a sonhar
com o Goeldi, que me disse para colocar uma certa
gravura no Salão. Não falei nada para
o Adir. Fiquei quieta. Assim, com dois meses de aula
de gravura, eu já estava no Salão de
Arte Moderna. O Adir reclamou de eu não lhe
ter mostrado a gravura, mas expliquei o que se passara.
Fiz o curso em três anos e me diplomei. Nessa
época, a Laís Aderne, minha irmã,
ia para a Europa e me indicou para substituí-la
na Escolinha de Arte do Brasil.
Isa Aderne - Sesc Tijuca, 27 de fevereiro de 1986
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