Goeldi, sonho de um sonhador.
Em uma quarta-feira de cinzas, no dia 15 de fevereiro de 1961, perdemos Oswaldo Goeldi que apenas deitou-se para descansar após o almoço e, dormindo, veio a falecer.
Goeldi, pelo início de 1956, já exercia as funções de professor (considerava-se “mero orientador") contratado da Escola Nacional de Belas Artes, lecionava gravura. Gostava de ensinar, porém era extremamente crítico com os resultados dos trabalhos produzidos por seus discípulos, só considerava as obras concluídas depois que seus alunos passassem por inúmeros estudos, desenhos e provas, até dar-se por satisfeito com o resultado.

Era alto, magro, com rosto anguloso e um olhar de quem estava permanentemente surpreso com o que via ao seu redor. Vestido sempre de paletó, sem gravata, gostava de ouvir as conversas dos amigos, mas era de pouco falar, no auge da alegria limitava-se a risinhos de dentes amarelados pelo fumo.

Ao redor das pequenas mesas com tampo de mármore, no Vermelhinho no Rio de Janeiro, mantinha-se o tempo todo de pernas cruzadas, braços sobre o joelho, costas afastadas do espaldar da cadeira e cigarro entre os dedos.

Os amigos de "boteco" eram os mesmos de todos os dias: Solano Trindade, poeta e teatrólogo, Antônio Fraga, escritor e jornalista, Santa Rosa, colega de Goeldi na Escola Nacional de Belas Artes e Gullar de Andrade. Goeldi era fraternal com os colegas, atencioso com os jovens artistas e extremamente reservado. Todos sabiam da vida simples que levava porém dizia : “Minha pobreza é minha liberdade”.

Oswaldo Goeldi adorava os peixes. Via-os como animais divinos e estranhos ao nosso mundo, o detalhe que mais o interessava eram os olhos em doloroso e mudo pedido de clemência. Sonhava com xaréus, enchovas e garoupas-gato batendo suas nadadeiras como se fossem asas em vôos rasantes sobre a cidade. Intencionava um dia produzir uma gravura com todos esses peixes e cardumes de alegres sardinhas que ele considerava "beija-flores do mar", coisa que nunca aconteceu.

Goeldi costumava, tarde da noite, dar um volta inusitada na Praça 15 de Novembro, onde havia um movimentado mercado e um barzinho muito simpático, que se mantinha aberto pela madrugada, chamado Bar e Restaurante Garoto. Seu passeio terminava com um chope "batizado" com doses de Underberg - bebida amarga que tomava com o argumento de ser um santo remédio para o estômago.

Figura introspectiva, porém despojada, tímido talvez, mas coerente em suas poucas colocações, amigo de todas as horas, porém, reservado com seus sentimentos e anseios guardados no íntimo.

Esta mostra de Oswaldo Goeldi, na coleção de André Buck, retrata um pouco daquilo que o artista produziu no auge de sua carreira como gravador, sua perfeição, seus traços marcantes e suas cores colocadas de forma magistral. Era um apaixonado quando descrevia o próprio trabalho, falava do projeto até o final quando sentia na pessoa a participação interessada.

Goeldi era fiel à sua temática servindo ao seu próprio tempo.

Falo deste personagem como se o conhecesse tanto e como se estivesse presente em seu cotidiano. Atribuo isso à sintonia espiritual que nos une, ao respeito pelo seu trabalho e sua maneira de encarar o mundo. Enfim, todos nós temos conhecimento do artista que Goeldi foi e do legado de obras que ele deixou para que pudéssemos admirar no futuro. Porém, deixo aqui registrado um pouco do que ele foi não como artista, mas apenas como homem, amigo, humano, apenas ele... Oswaldo Goeldi.


Lani Goeldi
Curadora